sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Girolamo Savonarola - Também conhecido como Jerônimo Savonarola

Reformador Teológico ou Contestador Político?

A vida do monge italiano Jerônimo Savonarola (1452-1498) [também conhecido como Girolamo Savonarola] geralmente apresentado como um dos precursores da Reforma do século XVI, abrangeu vários campos da atividade humana na cidade italiana de Florença. Existe, portanto, dificuldade em categorizá-lo. Teria sido ele um reformador, um político, um filósofo ou talvez um legislador?
I. Campo de Pesquisa e Propósito
A maior parte do que se escreveu sobre Savonarola aparece na forma de artigos, em enciclopédias ou em trechos de livros que narram a história do período. Livros exclusivos sobre ele, ou com partes extensas dedicadas à sua vida e atuação, são menos abundantes. Uma pesquisa em uma base de dados de 4.200.000 livros,1  revela apenas 49 livros2  que trazem Savonarola como o assunto principal ou como um dos assuntos principais. Como contraste, uma pesquisa na mesma base sobre o assunto "Martinho Lutero" apresenta o resultado de 748 volumes. Pesquisa semelhante em algumas bibliotecas brasileiras mostrou a disponibilidade de apenas 10 volumes escritos sobre Savonarola, quase que a totalidade de procedência italiana, nenhum de autor brasileiro, e apenas um desses traduzido para o português.3 
A dificuldade, entretanto, de se classificar e entender Savonarola não advém em função de parcas fontes de consulta. Poderíamos até dizer que a quantidade de obras escritas sobre Savonarola é razoável. Entretanto, as mais extensas biografias são do período romântico e tendem a extrapolar o mero registro dos fatos e introjetar uma visão idealizada ao biografado. Como já indicamos, as múltiplas atividades e ações atribuídas a Savonarola possibilitam que autores o apresentem à luz dos seus interesses específicos, dificultando uma visão isenta de sua obra e vida. O livro mais importante sobre a sua vida é, possivelmente, La Storia de Girolamo Savonarola e de’ Suoi Tempi, Narrata da Pasquale Villari Con L’aiuto di Nuovi Documenti (1850). Este livro, escrito pelo Prof. Pasquale Villari, está também disponível na língua inglesa4  e é um documento histórico precioso. A obra de Villari demonstra o cuidado e a incansável pesquisa que caracterizam eruditos dedicados. O seu trabalho é bastante abrangente cobrindo todos os pontos da vida de Savonarola. O livro fornece considerável informação sobre o pano de fundo histórico dos eventos e contém comentários valiosos sobre a filosofia, teologia e prática homilética de Savonarola. A sua precisão se estende a minuciosos detalhes. O livro de Villari é utilizado quase sem exceção por todos os livros posteriores escritos sobre a vida de Savonarola, firmando-se como um padrão e palavra de autoridade final, e foi o livro de utilização mais ampla neste ensaio.
Dois autores alemães são mencionados por Villari como importantes biógrafos de Savonarola: Rudelboch (Hamburgo, 1835) e Meier (Berlim, 1836).5  O primeiro, nos indica Villari, tenta se concentrar na doutrina de Savonarola, enquanto que o segundo na parte histórica dos eventos. No seu prefácio, Villari critica estes biógrafos alemães de Savonarola, indicando que eles exageram as tendências protestantes do frade. Esse é realmente um ponto nevrálgico de vários biógrafos corretamente identificado por Villari, principalmente quando o relato provém do campo protestante. Sobre esta questão pretendemos, posteriormente, traçar alguns comentários.
William Crawford escreveu um livro que se colocaria como o segundo em importância, em nossa avaliação.6  Ele utiliza o livro de Villari como diretriz, mas evidencia ser um estudioso independente de Savonarola, apresentando algumas pesquisas próprias. Ralph Roeder é outro autor que escreveu uma biografia de fácil leitura, mas de profundidade histórica menos intensa.7  Alguns outros livros escritos especialmente sobre Savonarola são de menor importância e com altos e baixos de qualidade.8  Extensa informação pode também ser encontrada em bons livros de história que cubram o período.9 
Finalmente, existem alguns documentos originais que foram compilados e publicados. De autoria do próprio Savonarola, temos partes da Bíblia que utilizava, com alguns comentários,10  algumas cartas e tratados apologéticos,11  bem como um trabalho sobre o livro de Apocalipse,12  um tema favorito de Savonarola em suas pregações.
O propósito deste artigo, além de apresentar o campo disponível para pesquisas sobre o monge dominicano e as fontes utilizadas, é traçar um breve perfil histórico de Jerônimo Savonarola, concentrado nos seus anos de maior atuação e influência em Florença, e examinar o posicionamento de algumas de suas idéias, traçando um paralelo destas com a visão de Lutero e Calvino, numa tentativa de discernir se poderíamos classificá-lo como um pré-reformador teológico, como tem sido a tendência nos círculos protestantes.
II. Infância e Formação
Jerônimo Savonarola nasceu em 21 de setembro13  de 1452 em uma das mais importantes cidades da Itália—Ferrara, na época uma das cortes mais importantes do país, com cerca de 100.000 habitantes. Filho de Niccolo e de Elena Savonarola, Jerônimo foi o terceiro dos sete filhos do casal. Alguns biógrafos o apresentam como uma criança precoce, possuída por uma inteligência superior, mas os trabalhos mais sérios contestam esta visão. "A única marca característica de sua juventude era a sua seriedade", diz Crawford.14  Aparentemente ele não era uma criança atraente, "… pois não era nem bonito nem brincalhão, mas sempre sisudo e controlado".15 
Os Savonarolas possuíam profundas raízes na história italiana. Alguns dos ancestrais de Jerônimo estavam registrados nas crônicas, como personagens importantes da história local. O mais importante Savonarola, além de Jerônimo, foi seu avô Michele, conhecido por seu trabalho médico e pelo amor devotado ao neto que se tornaria famoso. A reputação médica de Michele Savonarola levou-o a uma "… cadeira na Universidade de Ferrara e à sua indicação como médico particular de Niccolo d’Este".16  Por influência de seu avô, Jerônimo foi levado à sua casa e ali estudou medicina até os dezesseis anos. Aplicando-se aos estudos, desenvolveu, em paralelo, um forte senso de devoção que o levaria, no cômputo final, à vida monástica. Roeder assim descreve esta situação:
… seu avô estava gratificado; ele previu o desenvolvimento de um médico metafísico que excederia a sua própria pessoa, mas ainda não estava satisfeito. Encorajado pelo seu sucesso, e sendo ele próprio uma pessoa de intensa devoção, procurou melhorá-lo derramando toda a sua piedade naquela jovem mente. Ali ele encontrou uma resposta ainda mais profunda.17 
Após a morte de seu avô, Jerônimo foi educado por seu pai por dois anos adicionais antes de ser enviado à universidade, onde estudou cinco anos. A vida na universidade foi o seu primeiro contato com o mundo e ali ele se conscientizou dos grandes males da sociedade ao seu redor. A iniqüidade do homem, a corrução da sociedade, a grande miséria do mundo, eram todas coisas completamente adversas à sua formação. Ele deixou de ver necessidade ou de ter o desejo de dar continuidade aos estudos médicos, mas começou a ansiar por uma dedicação de sua pessoa às coisas de Deus e ao lado espiritual de sua vida. "Desgostoso com o mundo, decepcionado em suas esperanças pessoais, cansado dos constantes erros que observava e para os quais não possuía as soluções, ele decidiu temporariamente dedicar-se à vida no mosteiro…"18 
Jerônimo, como médico, era a esperança do seu avô e dos seus pais. Estes não admitiam que nada viesse a desviar o jovem da brilhante carreira à frente e se decepcionaram com a decisão tomada. Esta decepção e amargura está refletida no conteúdo das cartas trocadas entre Savonarola e seu pai logo após a sua entrada na vida monástica. Isso ocorreu no festival de S. Jorge. Os seus pais estavam, com o restante da cidade de Ferrara, participando das festividades, quando Savonarola fugiu de casa indo para Bolonha.19  O seu pai escreveu depois, em profunda tristeza:
Lembro-me como no dia 24 de abril, dia de S. Jorge, em 1475, Jerônimo, meu filho, estudante das artes, saiu de seu lar dirigindo-se a Bolonha, juntando-se aos irmãos de São Dominic, com o intuito de tornar-se também um irmão. Ele deixou-me, Niccolo delle Savonarola, seu pai, palavras de consolo e exortação, para minha satisfação.20 
Savonarola passou sete anos no mosteiro dominicano de Bolonha. Começou a estudar intensamente a Bíblia e as doutrinas da Igreja. Durante a sua vida no mosteiro, encontrava conforto na oração e no jejum. Logo foi comissionado a instruir os noviços.
Enquanto estudava a Bíblia, Savonarola começou a verificar, em paralelo, os males e a corrução reinantes na Igreja. Descobrindo a verdade sobre o que ocorria por trás das paredes do mosteiro, Savonarola teve o seu coração
…tomado por intenso pesar e movido por uma indignação irreprimível, ao verificar a deterioração e corrução da igreja cristã… O estado do mundo e da Igreja o preencheram com um pesar cheio de horror que só era aliviado através do estudo e da oração.21 
Savonarola foi se achegando mais e mais à Bíblia ao ponto em que ela se tornou o seu guia inseparável.
Em 1481 foi enviado a Ferrara, para pregar. Ali o ditado citado por Jesus de Nazaré (Lc 4.24) foi ratificado e ".. ele parece que causou pouca impressão em sua cidade natal".22  O seu ministério em Ferrara foi interrompido por uma guerra civil. Isso fez com que se deslocasse até Florença alojando-se no mosteiro de S. Marcos. Durante os próximos anos permaneceria em Florença sem despertar atenção maior. Em 1482 ele foi o orador de uma reunião de Dominicanos. Entre os seus ouvintes estava um leigo ilustre: Giovanni Pico, conde de Mirandola (Pico della Mirandola).
O assombroso conhecimento que fez de Pico a maravilha de sua geração e uma autoridade, mesmo em sua adolescência, em praticamente qualquer assunto que viesse a tratar, deu um peso todo especial aos seus elogios. Naquela augusta assembléia, estes elogios foram derramados sobre um de seus membros mais obscuros. Naquele delegado de S. Marcos ele reconheceu aquela qualidade que lhe faltava, e aquela que ele mais invejava—convicção.23 
Este foi o momento em que a carreira de Jerônimo Savonarola começou a trilhar o caminho ascendente que o colocaria em destaque junto às outras figuras internacionais do seu tempo.
III. O Cenário Histórico dos dias de Savonarola
A. A Ascensão das Cidades
No crepúsculo da Idade Média e no limiar da Europa moderna a história foi caracterizada por uma ascensão gradativa da classe média. Progredindo do feudalismo às novas monarquias, a classe média foi adquirindo cada vez mais influência. "Sob o feudalismo ninguém era soberano. O rei e o povo, os senhores e os servos, estavam unidos por um tipo de contrato. Cada um desses devia algo ao outro".24 Por outro lado temos os reis que surgiram em meados do século XV, conhecidos como os Novos Monarcas. Eles estabeleceram um sistema social completamente diferente, no qual as guerras entre os nobres eram suprimidas, a unidade nacional enfatizada e a lei e a ordem eram o objetivo principal. "Estes arrolaram como ponto de apoio os integrantes da classe média, nas cidades, que estavam cansados das guerras privadas e dos hábitos extravagantes dos nobres feudais".25 
O feudalismo e as novas monarquias ocorreram em paralelo durante algum tempo, mas existe um outro importante aspecto nas condições sociais daquela época que aconteceu nesse período de sobreposição. Referimo-nos à ascensão das cidades, situação na qual a classe média teve importante papel.
Nos séculos IX e X as antigas cidades haviam se deteriorado. Os grandes centros comerciais haviam desaparecido e com eles a classe mercantil. Com o desenvolvimento do comércio a longas distâncias os comerciantes iniciaram a formação de bases permanentes. As cidades começaram a emergir, em tamanho e em importância como novos centros comerciais, baseadas em razões econômicas e com o apoio da classe média. Como uma conseqüência natural da base econômica dessas novas cidades, os comerciantes começaram a se envolver na política. O desejo era na direção de um auto-governo e de efetivar a quebra de todos os laços políticos e do poder dos bispos e dos nobres. "No século XIII várias cidades na Europa haviam adquirido o direito de decidir o seu próprio destino".26  Muitas dessas cidades tornaram-se completamente independentes, especialmente na Itália, onde prevalecia a falta de unidade política. Algumas delas migraram para uma forma republicana de governo, tornando-se, em essência, repúblicas independentes.
B. Florença e os Médici
A cidade de Florença está inclusa nessa categoria das repúblicas independentes.27 A forma de governo daquele período, apresentada na República de Florença, abrigava provisões de ampla representatividade de todas as classes, especialmente da classe média.Foi em Florença que Jerônimo Savonarola passou a maior parte de sua vida. A cidade vivia primariamente de sua indústria.28  A energia dos florentinos estava focalizada especialmente na indústria e na política. "Algumas vezes parecia que revolução era o principal esporte ao ar livre, de Florença, e legislação constitucional o principal esporte praticado nos espaços internos".29 
Em 1434 um novo partido rico, liderado por um banqueiro local, Cosimo de Medici, chegou ao poder.
Durante quase sessenta anos após 1434, Cosimo e o seu neto Lorenzo, o Magnífico (m. 1492) administraram a cidade manipulando a sua constituição republicana. Cosimo era um banqueiro sugado pela política por seus interesses financeiros e que nela foi forçado a permanecer para salvar a sua própria pele.30 
Lorenzo, por outro lado, estava menos interessado nos negócios bancários. Ele era na realidade um déspota típico que devotou a sua energia, dinheiro e visão estética à tarefa de expandir e embelezar a cidade.
C. A Situação Geral da Europa
Fora da Itália, "…as novas monarquias estavam criando órgãos administrativos centralizados de governo, os quais, quando comparados aos antigos métodos feudais, apresentavam um gerenciamento político eficaz e mais poder de ação para o estado".31  Estes estados cresceram em poder em proporção direta aos seus interesses políticos e territoriais. Começaram a se equipar com o que havia de mais moderno em armas de fogo, artilharia e na organização de suas forças armadas. Em 1494 Carlos VIII, da França, invadiu a Itália que estava muito dividida para expelir os invasores franceses. Várias outras invasões se seguiram a estas e a Itália se tornou "… o campo de batalha para as forças que lutavam pela regência da península".32 
D. A Igreja
No final do século XIII, a Igreja atingiu o seu ápice administrativo, em riqueza e em poder. Após essa situação, podemos observar um rápido declínio na Igreja Católica Romana, tanto de poder como de moralidade. O declínio de poder foi provocado por um confronto com as forças existentes, externas ao papado. Estas haviam existido por gerações antes do século XIII, mas após esta era tornaram-se fortes demais para permanecerem isoladas nos antigos limites. "Algumas destas forças, em especial, eram as novas monarquias nacionais e as classes comerciais nas cidades".33 
Uma causa importante que contribuiu para o declínio moral da Igreja foi a idéia comum que atingiu a administração e que levará a ruína qualquer organização pública — "…a de que a instituição existe para o benefício daqueles que conduzem os seus rumos".34  O declínio na moralidade começou com a instituição do papado e rapidamente atingiu todos os ramos e aspectos da Igreja Católica. Assim era a situação da Igreja durante a vida de Savonarola.
IV. O Período de Popularidade de Savonarola
A. Savonarola e os Medici
"Savonarola começou a adquirir a sua reputação como um profeta de julgamento, chamando os homens ao arrependimento".35  Sua fama como pregador estava crescendo e, pela intervenção de Pico della Mirandola em 1490 foi chamado por Lorenzo de Médici. A Savonarola foi oferecida a prelazia do Mosteiro Dominicano de São Marcos. Após assumir estas responsabilidades o sucesso de Savonarola foi imediato.
O costume do mosteiro era o de que o novo reitor fosse prestar uma homenagem e demonstrar os seus respeitos e gratidão a Lorenzo, o Magnífico. Savonarola, demonstrando a coragem e determinação que o caracterizariam nos anos seguintes, recusou-se a cumprir com esta prática e disse: "Considero que devo minha eleição somente a Deus e a ele, somente, jurarei obediência".36  Lorenzo ficou profundamente ofendido com este fato. Ele estava esperançoso de contar com a amizade e apoio do frade que despontava como um poderoso pregador e que crescia em popularidade dia após dia. Lorenzo disse: "Vocês viram? Um estranho veio até a minha casa e mesmo assim ele não separa um tempo para me visitar".37 
Logo Savonarola começou a exercer grande influência entre o povo comum de Florença. Seus sermões proféticos asseguravam-lhe grande popularidade. Seus sermões de condenação dos males da Igreja fizeram com que fosse odiado por uns mas admirados por outros. Ele era severo no julgamento do caráter das pessoas e pregava seus sermões com ousadia, sempre expressando o pensamento de que não temia homem algum. Cedo começou a sentir aversão por Lorenzo, o Magnífico, como nos indicam estas duas citações:
Sabedor dos danos causados à moral pública pelo príncipe, [Savonarola] não tinha qualquer desejo de aproximar-se de um tirano que ele considerava não apenas um adversário e destruidor da liberdade, como também o principal obstáculo na restauração da vida cristã entre as pessoas.38 
Rapidamente Lorenzo começou a ressentir-se da influência exercida por aquele monge descompromissado, o qual não se contentando em limitar-se às suas exortações morais, pregava com confiança a vinda de um conquistador estrangeiro, a queda do Magnífico, a precariedade do papa e a ruína do rei de Nápoles.39 
O papa, na ocasião, era Inocêncio VIII, que ficou conhecido por ser um dos expoentes da corrução do papado. Ele havia sucedido a Sixto IV e possuía um íntimo relacionamento com os Medici de Florença. Um filho natural de Inocêncio havia casado com uma filha de Lorenzo. Em contrapartida, ele havia nomeado um filho de Lorenzo (um adolescente com apenas treze anos) cardeal! Savonarola com freqüência denunciava esta aberração.
Lorenzo de Medici faleceu em 1492, mas antes de morrer havia chamado Savonarola para com ele se confessar. Como uma condição para a absolvição dos seus pecados, Savonarola exigiu que Lorenzo restaurasse a Florença as suas antigas liberdades.40  Lorenzo não concordou com a condição imposta e Savonarola retirou-se sem absolvê-lo.41  Nesse mesmo ano ocorreu a morte de Inocêncio VIII sendo ele sucedido pelo Papa Alexandre VI.
O sucessor de Lorenzo foi Piero de Medici e Savonarola revelou ser o homem mais poderoso daquela república. Nessa condição ele começou a profetizar a queda dos Medici e foi bem sucedido em direcionar uma grande parte da população de Florença contra eles.
B. Os Franceses
Savonarola havia predito que alguém cruzaria os Alpes e descarregaria a vingança de Deus por sobre a Itália. Nessa ocasião ocupava o trono da França o rei Carlos VIII, descrito como "… um jovem de vinte e dois anos, cheio de uma estranha paixão pela aventura".42  Carlos VIII tinha pretensões ao trono napolitano, mas o seu objetivo era a conquista de toda a Itália. Esse seria o primeiro passo de uma grande cruzada contra os turcos, com a qual ele pensava em imortalizar o seu nome. No dia 22 de agosto de 1494 ele cruzou os Alpes iniciando uma bem-sucedida marcha francesa contra os italianos.
Os franceses foram auxiliados pela incapacidade de Piero de Medici e assim ganharam várias batalhas e asseguraram o controle do território toscano, que pertencia a Florença. A população ficou decepcionada e indignada, ao ponto de fazer com que Piero de Medici, sentindo a gravidade da situação, viesse a deixar a cidade.
No dia 4 de novembro os cidadãos mais velhos convocaram uma reunião especial do conselho dos setenta, para poderem decidir as providências que deveriam ser tomadas. Todos os membros apoiavam ou haviam sido nomeados pelos Medici, mas estavam tão enraivecidos pela rendição covarde das fortalezas que a reunião foi tomada pela atmosfera de uma assembléia republicana.43 
Como resultado, Piero foi declarado "… incapaz de reger o estado".44  Decidiu-se também que seriam enviados embaixadores para encontrar os franceses e informá-los de que a cidade estava predisposta a recebê-los. O padre Jerônimo Savonarola foi um dos embaixadores escolhidos "…porque havia conquistado o apreço de todo o povo".45 
Na realidade o povo passou a olhar os franceses como os cumpridores das profecias de Savonarola. Os embaixadores liderados por Savonarola conseguiram expressar ao rei invasor os mesmos sentimentos presentes na população de Florença — que o rei era um instrumento nas mãos de Deus para que efetivasse o castigo da nação, pelos seus crimes. Savonarola ganhou o respeito do rei e o acordo de que ele apenas passaria pela cidade sem causar-lhe dano.
A invasão dos franceses é um ponto de grande importância, pois resultou na queda dos Medici e no estabelecimento de uma nova forma de governo para a cidade de Florença.
C. Savonarola no Poder
No momento em que os franceses deixaram a cidade de Florença, a república viu-se dividida entre três partidos diferentes. O primeiro, dirigido por Savonarola, era o dos Piagnoni, e tinha como principal demanda a formulação de uma constituição democrática. O segundo partido era formado por pessoas que haviam compartilhado o poder com os Medici, mas que haviam se distanciado deles e eram chamados os Arabbiati. O terceiro partido era composto dos seguidores fiéis dos Medici, chamados os Bigi.
Esses três partidos se igualavam em poder. Um governo eficaz, sob o antigo sistema florentino, parecia uma impossibilidade real. Savonarola apresentou a necessidade de formação de um grande concílio no qual todos os cidadãos de Florença estivessem representados.
Esse concílio foi formado e declarado soberano em 1º de julho de 1495. O partido do povo se achava, agora, em pleno controle da situação e a vontade do povo era regida por Savonarola. Tudo parecia conspirar para o aumento da popularidade do pregador e para o acréscimo do seu poder.46 
Savonarola permaneceria no poder durante os próximos quatro anos. Sua atuação foi marcada por reformas morais, que se seguiram às reformas políticas, já efetivadas. Ele proclamou, em Florença, o "Reino de Cristo" e continuou suas denúncias contra os vícios e a luxúria. Prosseguindo na tradição medieval de pregação, já bem estabelecida, ele apresentava e condenava os males da sociedade florentina. Sua pregação influenciava tanto os ricos como os pobres. Um dos biógrafos, possivelmente utilizando a palavra converter fora do estrito sentido bíblico do termo, escreveu: "Ele converteu a muitos da classe artística. Michelangelo, Botticelli, Cronacor, Lorenzo di Credi; dois da família della Robia e Bartolommeo della Porta se achegaram à catedral de São Marcos."47 
O resultado das pregações de Savonarola foi sentido nas atitudes dos florentinos. Os incidentes conhecidos como as "fogueiras das vaidades," em 1497 e em 1498, refletem a receptividade dos habitantes de Florença às orientações de Savonarola: "grupos de jovens foram organizados para percorrerem a cidade coletando os símbolos da vaidade e do mal para serem destruídos."48  Esses objetos eram queimados em uma grande fogueira erguida na praça central da cidade.
Muito tem sido escrito sobre estas fogueiras. Alguns livros chegam a apresentar Savonarola como sendo um inimigo reacionário das artes em função do que grandes artistas fizeram, como Botticelli, que "queimou muitas de suas telas".49  Mas a maioria dos seus biógrafos apresenta Savonarola como um estudioso de amplo entendimento, sendo ele próprio um amante das artes, que não poderia ser culpado dos excessos cometidos nas "fogueiras das vaidades".
D. A Queda
Era inevitável que esse movimento independente por reformas, apesar de poderoso, viesse a colidir com os interesses e com a política do papado. O Papa Alexandre denunciou Savonarola como herege e interditou suas atividades como pregador. Inicialmente Savonarola obedeceu a determinação, mas finalmente disse que Deus lhe havia revelado que não deveria se submeter a um tribunal corrupto, e continuou a pregar. Começava a surgir, também, a oposição do ponto de vista político fazendo com que o frade viesse a perder grande parte do seu antigo apoio popular. "Nesse meio tempo a rivalidade existente entre as ordens monásticas, encorajadas pela corte de Roma, produziu a demanda, ao Papa, de um líder que viesse combater a Savonarola".50 
Um frade dominicano — Francisco de Apulia — desafiou Savonarola a passar pela fogueira junto com ele para ver qual dos dois contava com a aprovação de Deus. Savonarola recusou o desafio, mas um amigo devoto, Frade Domenic Buonvicino, disse que passaria pela prova em seu lugar. Toda a população de Florença recebeu a notícia com expectativa e alegria. No dia 17 de abril de 1498 uma plataforma foi erguida na praça pública de Florença. Nela foram colocadas grandes pilhas de madeira, separadas por um espaço estreito, o qual deveria ser atravessado pelos frades, enquanto o fogo consumia as fogueiras.
Uma grande discussão ocorreu quando os dois frades chegaram ao local. Os oponentes de Savonarola não queriam permitir que o frade Buonvicino entrasse no corredor de fogo carregando uma cruz. Insistiam que ele deveria percorrer o trajeto sem qualquer forma de proteção divina. A disputa foi ficando acalorada. As horas que se seguiram são descritas da seguinte forma por Jean C. L. Sismond: Várias horas haviam se passado. A multidão, que havia suportado a longa espera, começou a sentir-se faminta, sedenta e a perder a paciência. Repentinamente uma chuva torrencial caiu sobre a cidade vertendo um fluxo considerável de água dos telhados sobre os presentes. As pilhas de madeira ficaram tão encharcadas que não podiam ser colocadas em fogo. A multidão decepcionada, que havia aguardado com tanta impaciência a manifestação de um milagre, começou a dispersar-se com a noção de que havia sido manipulada. Savonarola perdeu todo o seu crédito e passou a ser considerado, daí para frente, como um impostor.51 
Nos dias que se seguiram, o mosteiro foi tomado pelos Arabbiati, que se aproveitaram da inconstância da multidão. Savonarola foi preso, juntamente com dois amigos. Juízes foram enviados de Roma por Alexandre VI com a ordem de efetivar a condenação de Savonarola à morte. Iniciou-se um julgamento no qual a utilização de tortura foi freqüente. No dia 23 de maio de 1498, no mesmo local onde seis semanas antes fogueiras haviam sido erguidas antevendo um triunfo, os três monges foram queimados vivos.52 
V. Análise da Mensagem e Idéias de Savonarola
A. As Profecias de Savonarola
Muitas pregações de Jerônimo Savonarola chamam a atenção pelo seu caráter "profético". Com isso queremos dizer que elas não se constituíam apenas em exposições dos textos bíblicos e aplicação às condições dos seus ouvintes e do seu tempo. A maioria delas vão mais além e representam verdadeiras predições detalhadas de eventos futuros, principalmente aqueles relacionados com Florença — seus dirigentes e seus invasores — e com a instituição do papado. O fascínio da Savonarola com o futuro começou com o seu estudo do livro de Apocalipse e com as pregações sequenciadas realizadas com base nesse livro da Bíblia.53  Sua pregação nem sempre teve essa característica profética. No início ela era concentrada nas denúncias dos males e na necessidade de arrependimento. "Arrependei-vos!" "O julgamento de Deus não tarda!" "Uma espada está suspensa sobre vossas cabeças!" Todos esses eram temas freqüentes de suas pregações que revelavam intensa sinceridade de coração. Os seus ouvintes, entretanto, começaram a vislumbrar inferências proféticas. As ilustrações e abundantes alegorias passaram a ser rotuladas como sendo "visões", pelos florentinos, que as conectavam com os fatos que haveriam de ocorrer.
Savonarola passou a ser identificado como um "profeta" ao ponto de Pico della Mirandola dizer: "Savonarola pode ler o futuro tão claramente quanto uma pessoa qualquer pode identificar que um pedaço é menor do que a totalidade de uma coisa".54  Simplificando um pouco o complicado raciocínio medieval de Mirandola, ele está afirmando que, para Savonarola, a previsão do futuro era tão simples e natural como a mais básica percepção da pessoa comum. Neste estágio inicial, provavelmente Savonarola apenas apresentou um poder de análise acima da média e uma aguçada conscientização do mal, ou como diz um autor, ele "… viu com maior clareza do que as outras pessoas aquilo que era inevitável".55 
Com o passar do tempo, entretanto, começou a julgar-se um profeta no sentido de um recebedor de revelações diretas de Deus. Não obstante estar pregando sobre o livro de Apocalipse, Savonarola não foi alertado para a suficiência, tanto do próprio livro,56  como da própria Palavra de Deus,57  e começou a dar crédito às afirmações populares de que era um visionário, passando até a propagar que possuía tais qualificações. Em seus últimos anos ele profetizou de forma incontrolável, acreditava que tinha visões e demonstrou um comportamento mais característico do fanatismo do que aquele que procede de um cérebro equilibrado.58 
Esse lado "profético" do ministério e vida de Savonarola foi excessivamente enfatizado tanto pela população, como por ele próprio, em seus últimos anos. O mesmo ocorre com vários de seus biógrafos, que o apresentam como tendo essa característica em toda a sua vida de pregador. Realmente a ênfase nas "visões" não representa o aspecto mais saudável da vida de Savonarola, mas concentração nesse aspecto místico desvia o enfoque daquilo que foi o maior mérito do frade: a denúncia dos males da Igreja Católica e as suas reformas políticas moralizadoras locais.
B. Savonarola e Lutero—Reformadores Similares?
Um ponto aparentemente pacífico, mas que clama por uma reflexão, é a classificação de Savonarola como um reformador ou pré-reformador. Savonarola foi um reformador no sentido de que ele batalhou por pureza moral e lutou contra os males sociais de seu tempo. Com relação à igreja, ele conclamava a uma mudança de costumes e práticas. Na esfera política e legal, ele também foi um reformador pois teve o papel principal no estabelecimento de uma nova forma de governo na cidade de Florença, consideravelmente distinta da anterior.
Savonarola, entretanto, não pode ser considerado um pré-reformador ou mesmo um reformador eclesiástico no sentido em que o termo tem sido aplicado a Huss, Lutero ou Calvino. No estrito senso da palavra, um reformador deveria ter contribuído de alguma maneira para o restabelecimento das doutrinas bíblicas, ter tido parte ativa na remoção do entulho das tradições humanas que soterraram as verdades da Palavra de Deus. A questão de restauração doutrinária excede à demonstração de um mero zelo moral e sociológico que se apresentam como as características principais de Savonarola. Ela excede até a expressão de intensa sinceridade pessoal, que ele aparentemente possuía.
É verdade que o frade de Florença é freqüentemente apresentado por seus biógrafos como sendo exatamente um reformador. Uma enciclopédia biográfica o descreve como "… um reformador antes da Reforma".59  Um historiador da Reforma do Século XVI chama Savonarola de "precursor da Reforma".60  O exame mais apurado de suas pregações, entretanto, revela realmente o desejo de uma reforma moral, mas não doutrinária. Nesse sentido ele não tem paralelo aos reais reformadores.
Ele não assumiu para si o direito de examinar doutrinas mas limitou seus esforços à restauração da disciplina, à reforma da moralidade do clero, a chamar os padres, bem como os demais cidadãos, à prática dos princípios do evangelho.61 
Lutero, comparativamente, também mostrou preocupação quanto aos males morais, mas foi à raiz dos problemas e realizou uma reforma doutrinária que afetou a estrutura completa da Igreja Católica. Na visão de Lutero, a Igreja deveria retornar à pureza doutrinária dos dias dos apóstolos. As reformas morais foram uma conseqüência inevitável dessa ênfase, mas não subsistem como causa perene de mudanças. A própria Igreja Católica teve em seus quadros homens de intensa sinceridade e desejo de reforma moral, mas que conviveram pacificamente com os erros doutrinários, como Erasmo de Roterdã.
Savonarola prendeu-se à prática de certos sacramentos da Igreja, tais como a absolvição sacerdotal de pecados.62  Para fazer justiça à sua memória, devemos registrar que no final de sua vida ele escreveu um folheto sobre o Salmo 51 no qual se aproxima consideravelmente da doutrina bíblica (e protestante) da justificação pela fé, mas aí ele já não exercia tanta influência e no máximo o trabalho registra a sua postura pessoal perante essas verdades. Lutero publicou este folheto com um prefácio elogioso.63 
Mesmo sem ter iniciado ou tentado iniciar uma reforma doutrinária, os méritos de Savonarola são consideráveis:
– Ele se dissociou completamente da estrutura hierárquica da Igreja Católica Romana e levou consigo aqueles que se colocaram sob sua influência.
– Separando-se da Igreja, naquele época e situação, ele se preservou da contaminação gerada pela corrução e males morais presentes na organização.
– Por utilizar a Bíblia como fonte primária de suas pregações, em vez da tradição da Igreja, ele transmitiu muitos ensinamentos da Palavra aos florentinos, desenvolvendo uma forma eficaz de comunicação e exortação a uma vida moral.
C. Savonarola e Calvino—Legisladores e Pensadores Semelhantes?
Savonarola regeu Florença durante quatro anos. Depois que os franceses se retiraram da cidade e na véspera das grandes reformas políticas que haveriam de ocorrer, Savonarola dirigiu-se ao povo dizendo: "se vocês querem um bom governo, ele tem que ser derivado de Deus".64  Depois de assumir o poder na prática, Savonarola procurou conservar em mente o que havia declarado. Durante esses quatro anos,
…sem abandonar seus próprios assuntos sagrados, sem por um momento abrir mão de sua elevada posição como um profeta e mensageiro de Deus, este homem extraordinário estabeleceu o seu sistema de impostos, sua proposta de anistia geral, e, talvez em sua mais importante ação, o seu plano para formação de uma corte jurídica de apelo contra as sentenças do Otto, o corpo de magistrados florentinos que se constituíam nos supremos juizes de todos os casos.65 
Savonarola foi um legislador competente e intencionou criar em Florença a sua versão moderna de uma teocracia. Por essa razão, ele é freqüentemente comparado com Calvino. Diz um historiador: "Sua posição [em Florença] se assemelhava àquela que Calvino ocupou por um longo tempo em Genebra".66  A semelhança, entretanto, se restringe à sua capacidade e realizações como legislador.
Doutrinariamente, Savonarola e Calvino diferem consideravelmente. Na melhor tradição de Tomás de Aquino, Savonarola insistia tanto filosófica como teologicamente, na eficácia e necessidade das boas obras e na irrestrita liberdade do arbítrio humano. Sobre essa questão, Villari traz a seguinte citação de Savonarola: "É o livre arbítrio que distingue o homem dos animais".67  Calvino não concordava com essa visão simplista de diferenciação. Na realidade ele ensinou que o livre arbítrio, no sentido de execução de escolhas, não representa essa distinção, uma vez que os prórprios animais escolhem o que é necessário ao seu bem-estar. Comentando o próprio pensamento de Tomás de Aquino,68  Calvino diz que os da escola de Aquino:
… admitem que o livre arbítrio está ativo somente quando a razão considera possibilidades alternativas. Eles querem dizer, com isso, que o objeto do apetite deve ser influenciado pela escolha e que a deliberação deve preceder o caminho da escolha. Na realidade, se alguém considera esta característica do desejo natural do homem [como livre arbítrio] encontrará que ele tem isso em comum com os animais. Estes também desejam o seu próprio bem-estar e quando confrontam algo bom que apela aos seus sentidos eles o perseguem. Mas o homem não escolhe pela razão e persegue com zelo aquilo que é essencialmente bom para si, de acordo com a excelência de sua natureza imortal…69 
Em uma outra declaração Savonarola diz:
Nossa vontade não pode ser movida por nenhuma força externa, nem pelas estrelas, nem pelas paixões, nem mesmo por Deus. O Criador não destrói mas preserva, movendo o mundo e todas as coisas criadas de conformidade com as leis de suas próprias naturezas. 70 
Essa afirmação de Savonarola também contrasta com o ensinamento de Calvino, que, refletindo Paulo e Agostinho, mantém a visão bíblica de que o arbítrio do homem está aprisionado pelo pecado71  e somente a soberana graça de Deus atinge aqueles que ele escolheu para a redenção. Sobre essa pretensa autonomia humana, defendida por Savonarola, escreve Calvino:
A exaltação do homem em si mesmo é o trabalho do diabo. Não devemos dar lugar a esses pensamentos a não ser que queiramos ouvir os conselhos do inimigo. É um doce pensamento imaginar que temos tanto poder interno que podemos confiar em nós mesmos! Mas não sejamos enganados por essa confiança vazia; sejamos impedidos pelos trechos numerosos e relevantes, das Escrituras, que totalmente nos humilham.72 
Existe, portanto, muita necessidade de qualificarmos qualquer paralelo traçado entre Savonarola e Calvino, pois certamente as divergências doutrinárias são fundamentais e não secundárias.
Conclusão
Savonarola foi um reformador político e moral que viveu uma intensa e fascinante controvérsia num período crucial da história. Suas reformas legislativas não sobreviveram a sua própria existência. Seus chamados a uma moralidade de vida sem a base de vidas regeneradas pelo evangelho da graça de Cristo, foram rapidamente sufocados pela pecaminosidade latente dos que o apoiavam, rapidamente transformados em impacientes perseguidores. Sua rejeição da estrutura hierárquica de Roma, por considerações morais, não o levaram a uma reconsideração das doutrinas e desvios de ensino daquela Igreja, tão distanciados das verdades bíblicas.
Savonarola tem o seu lugar de destaque na história, mas sua classificação como pré-reformador ou até como um legítimo reformador ocorre apenas se forçarmos ou romancearmos os registros da história. De modo algum pode ser colocado em paridade com Lutero ou Calvino, que clarificaram as principais doutrinas da Igreja, tornando visíveis e permanentes as distinções que separam os protestantes da tradição Católica Romana.
Podemos até mesmo dizer que Savonarola reconheceu problemas na Igreja e os identificou corretamente, mas não providenciou as respostas, que só poderiam ser extraídas das Escrituras. Lutero e Calvino, por outro lado, fizeram exatamente isso.
English Abstract
Girolamo Savonarola — Doctrinal Reformer or Political Activist?
In this article F. Solano Portela presents an overview of Girolamo Savonarola’s life (1452-1498) and message. His main thesis is that his status as a pre-reformer has been exaggerated, especially by his Protestant biographers. After presenting the source material available to the researcher of Savonarola and of his work in Florence, he describes the key points in Savonarola´s life and the historical setting in medieval Italy. Continuing, Portela comments on Savonarola’s preaching, message, and work by comparing these with Luther and Calvin’s. He concludes showing that, in this comparison, there are significant and important differences of approach and doctrine that should prevent the classification of Savonarola as a reformer or pre-reformer, in the strict sense of the term. Portela writes that Savonarola should be recognized as someone that properly identified and courageously confronted the evils of his time. Nevertheless, his attempt at moral and political reforms did not address the real issue. This issue, correctly discerned by Luther and Calvin, was the need for a return to the preaching and doctrines of the Bible as the means to a divine transformation of hearts. According to Portela, spiritual regeneration is what made possible the long lasting changes in life style, church structure and political order achieved through the work of the real reformers.
__________________________

John Huss - Semente da Reforma Introdução

Dizem que política, futebol e religião são temas que “não se discutem”, depende da opinião de cada um, afinal, “cada cabeça, uma sentença”. As pessoas preferem acreditar em muitas “verdades” do que numa verdade absoluta. Dessa forma, o conceito de “certo” e “errado” vai desaparecendo da sociedade. Contrapondo-se a este ensino temos as palavras de Jesus “... a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17). E foi a essa Verdade a que John Huss se submeteu. Em sua época, havia uma “verdade” oficial e inquestionável – a verdade da Igreja Católica Apostólica Romana. No entanto, John Huss, conhecendo a legítima Verdade não se calou e fez com que muitos homens e mulheres tivessem acesso à verdadeira libertação dada por Jesus.
1. Um Homem Comum, Mas Sonhador
A.Infância Pobre
John Huss (1369-1415) foi um homem de origem simples. Nasceu no vilarejo de Hussinecz, sul da Boêmia. Seus pais eram camponeses. Sua mãe, muito religiosa, quis que o filho fosse sacerdote. Mais tarde, Huss admitiu ter iniciado a carreira religiosa pelo dinheiro e prestígio que  ela dava, mas seu interesse por Deus veio quando ele começou a estudar mais profundamente.
B. Aluno Médio
Huss não foi um aluno brilhante, mas parecia determinado a estudar e crescer. Assim, formou-se na universidade, tornou-se Mestre e dirigente da Capela de Belém, em Praga, cidade importante em seu país. Nesta Igreja, Huss pregava na língua do povo. Nas outras, o serviço religioso era feito em latim.
C. Pastor Preocupado
Huss foi um pastor dedicado. Sua preocupação era agradar a Deus com uma vida santa e prover sólida alimentação espiritual ao povo. Criticava duramente os líderes da Igreja por usarem seus ofícios em benefício próprio, vivendo no conforto e na imoralidade. Para Huss, a autoridade de um líder religioso vinha do seu caráter e não da sua posição.
Huss insistia que o povo deveria viver em total dependência de Deus, numa vida simples e consagrada ao trabalho.
Deus sempre levanta homens simples que sonham em ver a verdade de Deus como luz e guia dos homens. Muitos jovens, homens e mulheres de hoje buscam realizar seu sonho pessoal ou projeto de vida, mas poucos estão dispostos a abraçar o projeto de Deus e lutar contra o erro e o engano. É sobre isso que tratamos no próximo ponto.
2. Um Homem que Enfrentou a Oposição em Nome da Verdade
A. Deus Agindo na História
Deus é soberano. Ele é Senhor da história. Age na história e a dirige segundo a sua vontade. Aquele filho de camponeses foi ferramenta importante. Pela providencia de Deus, Huss fora colocado como o dirigente da Capela de Belém, na importante cidade de praga. A rainha Zofie costumava freqüentar aquela igreja. Ela era esposa do rei Václav da Boêmia. Zofie influenciou o rei para que facilitasse as reformas pretendidas por Huss. Com isso, a reforma cresceu, tendo Huss como líder e o Rei como escudo contra as investidas do papa.
B. Coragem para Estabelecer a Verdade
Apesar da cobertura do Rei, surge no cenário o Arcebispo de praga, chamado Zbynek, um ex-militar e agora superior de Huss. Um estrategista, que usou de sus recursos financeiros e políticos para obter este poderoso cargo no arcebispo de Praga. Zbynek não teve qualquer preparo teológico ou formação eclesiástica. A missão dele era a de erradicar a heresias de Wycliff naquela região  e com isso ganhar favores do papa. Zbynek tornou-se grande inimigo da causa reformista de Huss.
C. Radicalismo ou Fidelidade a Deus?
Huss, influenciado pelos escritores de John Wycliff, tornava-se cada vez mais um apaixonado pela reforma da Igreja de Jesus Cristo. Começa então a andar em terreno perigoso. Em 1405 declara que a suposta aparição do sangue de Cristo nos elementos da comunhão não passava de embuste. Em seus sermões, condenava o pecado dos padres, bispos e arcebispos. Declarava que os crentes tinham o mesmo direito que os sacerdotes de participarem do cálice na ceia, e não somente do pão. Ridicularizava o pretenso poder dos sacerdotes de concederem o Espírito Santo a uma pessoa ou mandarem-na para o inferno.
Foram muitas e duras as críticas expostas por Huss do púlpito de sua igreja e da tinha de sua pena. Huss via a Igreja de Cristo em uma situação de clamidade e não pôde se conter diante de tantas irregularidades.
Conseqüentemente a liderança da Igreja começou a reagir. Zbynek ficou enfurecido ao saber que muitos pregadores, seguidores de Huss, acusavam Zbynek de simonia (venda de milagres) e imoralidade. Zbynek resolveu calá-los prendendo-os. Entretanto, Huss respondeu: “Como pode haver sacerdotes imorais e criminosos andando pelas ruas livremente, enquanto que os humildes homens de Deus estão enjaulados como hereges e sofrendo privações por causa da proclamação do Evangelho?”¹
O arcebispo Zbynek passou a enviar espias à igreja de Huss para ouvirem seus sermões. Huss sabia disso, mas não se intimidava.
Com a força do Espírito de Deus Huss tornou-se um gigante em plena Idade Média. Huss enfrentou o poder corrupto dentro de sua própria igreja e não  temeu. Seu única temor era reservado àquele que é Senhor da Igreja e da História. Ao constatarmos isso podemos perceber quão omissos somos nós hoje!. Diante de corrupção, da violência e injustiça que verificamos em nossos dias, a coragem e audácia de John Huss não deveria nos mover em favor do reino de Deus?
3.Um Homem que Perdeu a Batalha, Não a Guerra
A.Uma Cilada para John Huss
Huss recebeu ordens do próprio papa para se cala, mas não se calou. Em 1412, o papa João XXIII  proclamou uma cruzada contra o rei Nápoles, que tornara-se rebelde. Para levantar fundos contra a guerra, o papa institui a venda de indulgências (perdão) em larga escala por todo o império. Huss ficou horrorizado com isso e declarou: “mesmo que o fogo para queimar o meu corpo seja colocado diante dos meus olhos, eu não obedecerei”. E ainda, diante  de grande pressão, declarou: “Ficarei em silêncio? Deus não permita! Ai de mim, se me calar. É melhor morrer, do que não me opor diante desta impiedade, o que me faria participante da culpa e do inferno.” Excomungado já quatro vezes, Huss resolveu exilar-se voluntariamente, para que sua igreja não privada das ministrações. Foi para o sul da Boêmia, onde escreveu livro e pregou em alguns vilarejos. Dois anos depois, o papa convocou um concílio em Constança e convidou Huss. Depois de receber garantias do imperador da Boêmia, Sigismund, meio irmão do rei Václav, que prometeu conceder-lhe salvo conduto enquanto estivesse em Constança, Huss aceitou o convite. Na segunda semana que estava em Constança, Huss foi preso e ficou nesta condição vários meses enquanto o Concílio prosseguia.
B. Uma Triste Ironia
Huss sofria amargamente numa prisão onde hoje se encontra um luxuoso hotel. As condições na sela eram tão precárias que Huss ficou seriamente enfermo e quase morreu. Nenhuma oportunidade de defesa lhe foi dada.
C. A Morte de Huss
Finalmente Huss foi chamado ao Concílio. Advertiram: “Reconsidere seus escritos, ou morre”. Huss não voltou atrás. Então, rasgaram suas vestes e colocaram em sua cabeça uma mitra de papel com 3 demônios desenhados e escrito “Eis um herege”. Acompanhado por uma multidão, Huss, amarrado e puxado pela ruas de Constança foi ao local de sua morte.
Na presença de homens, mulheres, velhos e crianças, Huss foi amarrado numa estaca e lhe deram mais um oportunidade para rever seu ensino. Mas em um grito respondeu: “Deus é minha testemunha de que a principal intenção foi tão somente libertar os homens de seus pecados e baseado na verdade do Evangelho que preguei e ensineu, estou realmente feliz em morrer hoje.” Com estas palavras um sinal foi dado ao executor que acendeu a fogueira. Por entre chamas e fumaças Huss entoou uma melodia “Jesus, Filho do Deus vivo, tem misericórdia de mim.” Huss morreu cantando.
Huss enfrentou pressões terríveis. Poderia viver uma vida confortável, desfrutando de seu status de mestre e líder religioso, mas, com Moisés, “preferiu ser maltratado... a usufruir  os prazeres transitórios de pecado; porquanto considerou o opróbrio de Cristo por maiores riquezas do que os tesouros do Egito, porque contemplava o galardão” (Hb 11.25,26).
Conclusão
Apesar de morto, John Huss não foi derrotado. Deixou um legado para a causa da Reforma Protestante que surgiria décadas depois, com Martinho Lutero. Tanto Wycliff como Huss foram sementes semeadas a seu tempo, que brotaram anos mais tarde, cujos frutos colhemos ainda hoje.
Que possamos, como verdadeiros cristão, defender a verdade do Evangelho e, se preciso for, assim como John Huss, morrer por ela.
Nota
¹ Revista Church History, p. 13.

John Wycliff

A luz começa a brilhar
Introdução
Ao anoitecer, pode vir o choro, mas a alegria vem pela manhã” (Sl 30.5). Depois das trevas, do medo e da perseguição, chega o alívio com os primeiros raios de luz. A Bíblia, escondida na era das trevas, começar agora a aparecer. A bem sucedida participação na história da reforma de homens como Martinho Lutero e João Calvino, parece apagar um pouco da importante contribuição de John Wycliff e John Huss. Mas estes foram os precursores do movimento reformado. São chamados de pré-reformadores. Depois de uma época de descontentamento contra os abusos da Igreja Romana por toda a Europa, Deus, pela sua misericórdia, começa a levantar homens para fazer a Igreja de Cristo, a noiva, voltar a ser pura, santa e sem mancha. John Wycliff é chamado de a “Estrela d’alva da Reforma” por ser o primeiro instrumento usado por Deus a enfrentar o sistema papal antibíblica e as injustiças da Igreja Católica. Foi ele quem deu o “ponta-pé inicial” na emocionante história da volta da Igreja às Escrituras Sagradas. A presente lição pretende mostrar o valor do ensino Bíblico para a Igreja de Cristo e a importância de servos que se colocam como verdadeiras ferramentas na mãos do Senhor.
1. John Wycliff
A. Um grande erudito
O que marcou a vida deste homem foi sua erudição e dedicação ao estudo da teologia. Nasceu em Hipswell, Yorkshire na Inglaterra, em 1329. Foi estudar em Oxford e logo se notabilizou por sua inteligência e erudição. Dominou a filosofia e os ensinos de Agostinho (ensinos que mais tarde influenciariam homens com Lutero e Calvino). Por ser um grande teólogo, tornou-se capelão do Rei da Inglaterra, Ricardo II. Nesta posição pôde fazer muito pela reforma de sua Igreja.
B. A presença de Deus na História
Deus é o Senhor da História. Nela ele mostra o seu amor e cuidado pela Igreja. Estando numa posição de grande destaque, Wycliff pôde ter acesso ao Parlamento e traduzir a Vulgata (Bíblia em Latim) para o Inglês. Essa tradução foi de fundamental importância, tanto para a vida espiritual do povo, como também para o próprio inglês.
Como fez com a rainha Ester, Deus ainda hoje eleva homens e mulheres para posições de grande destaque, conforme seus soberanos propósitos, para o engrandecimento do seu nome e crescimento de sua Igreja. Vemos aqui a distinção entre o homem de Deus e o homem sem Deus – Wycliff usou sua autoridade para a glória de Deus, enquanto que o papa perdeu sua autoridade diante de Deus pois a usava para si próprio.
2.Ensinos Voltados para a Bíblia
Wycliff defendeu as seguintes idéias para obter a reforma da sua igreja:
A.Sobre a Bíblia
Wycliff ensinava que os concílios e a liderança da Igreja deveriam ser provados pelas Escrituras Sagradas. A palavra do papa e a tradição da igreja não poderiam ter uma autoridade de maior do que a da Bíblia. Para o reformador Inglês, a Bíblia é a única regra de fé e prática. Ela é suficiente pra suprir as necessidades da alma humana, sem que sejam necessárias as intervenções da Igreja e as mágicas de seus sacerdotes. Wycliff entendia também que as Sagradas Escrituras deveriam ser colocadas na mão do povo e não ficarem limitadas ao clero (liderança da Igreja).
B.Sobre o Papa e seus sacerdotes
Wycliff ensinava que os papas eram homens sujeitos ao erro e ao engano. Assim como dentro da Igreja de Cristo havia joio e o trigo, ser líder da igreja não era garantia de salvação, muito menos de perfeição. Ensinava que o ofício do papado era invenção do homem e não de Deus e que o papa seria o anticristo se não seguisse fielmente os ensinamentos de Cristo. Censurou monges quanto à preguiça e ignorância deles no que dizia respeito ao estudo das Escrituras.
C. Sobre a Ceia
Segundo a Igreja Católica Romana, no momento da ceia o pão e o vinho se transformam no corpo e no sangue de Cristo. Este dogma é chamado de transubstanciação. Wycliff declarou que esta doutrina era antibíblica, pois Cristo está presente nos elementos de forma espiritual e não física.
O historiador E.E.Cairns diz que “se a idéia de Wycliff fosse adotada, significaria que o sacerdote não mais reteria a salvação de alguém por ter em suas mãos o corpo e o sangue de Cristo na comunhão”¹
Com sua inteligência e posição dadas por Deus, a pregação de Wycliff começava a ser ouvida nos mais distantes cantões da Inglaterra, chegando a atravessar o mar em direção ao continente. Muitas pessoas devem ter recebido seus ensinos ou ganhado uma Bíblia na sua própria língua conhecendo assim a vontade de Deus para suas vidas.
3.Influência que Atravessou Fronteiras
A. Os lolardos
Para que o ensino bíblico fosse transmitido por toda Inglaterra, Wycliff fundou um grupo de pregadores leigos, os quais receberam o nome de Lolardos. O trabalho de expansão  deu certo, mas o papa não gostou. Em um decreto², a Igreja condenou os Lobardos à pena de morte. Apesar disto, Deus não permitiu que nenhum desses pregadores fossem mortos.
B.Os boêmios
Estudantes da região da Boêmia, no centro da Europa, foram para Oxford e lá tiveram contato com os escritos de Wycliff e com alguns dos Lolardos. Ao regressarem para a sua terra, os boêmios levaram as novas informações e ensinos que acabaram influenciando aquele que seria um outro grande reformador, John Huss.
Ao tomar os primeiros contatos com os escritos de Wycliff, Huss escreve na margem de seus papéis: “Wycliff, Wycliff, você vai virar muitas cabeças”. Anos mais tarde, Huss teria sido acusado pela Igreja de Wicliffismo.
A história nos mostra que Deus vai espalhando sua semente. Assim como na Igreja Primitiva, crentes foram influenciando pessoas, autoridades e até reis, a ponto de ocupar todo o mundo. Temos a Bíblia em nossas mãos hoje porque servos e servas de Deus se dedicaram para isto. A mensagem continua viva. Será que a Igreja tem influenciado? O Evangelho de Cristo tem de fato sido pregado?
4.Condenado Depois de Morto
Próximo aos 55 anos de idade, Wycliff sofreu um derrame e morreu. Passados 30 anos, o Concílio de Constança, convocado pelo papa João XXIII, reuniu-se em 1415 e, sob a condenação de heresia, decidiu exumar o corpo de Wycliff e queimá-lo em praça pública.
Como pode-se observar, o poder arbitrário tomou conta da Igreja. Absurdos como a punição de um homem depois de morto e outros mais preencheram a sua história.
Mas tudo isso não foi suficiente para calar a voz do Evangelho. O clero não percebeu que estava lutando contra o próprio Deus.
Conclusão
Vimos que a escuridão da Idade Média começa a ser vencida pelos primeiros raios de luz de manhã. Deus prepara um homem, coloca-o numa posição de influência e autoridade e começa a trazer a Igreja de volta para o seu noivo.
John Wycliff envolve-se numa batalha de fé pela Verdade das Escrituras, coloca a Bíblia na mão do povo, ensina-a e tenta tirar este povo das mãos daqueles que exploravam suas vidas. Morre, mas deixa uma mensagem viva, um exemplo de luta pelo Evangelho.
Certo autor escreveu que a luta dos pré-reformadores terminou com insucesso. Entretanto, devemos crer que a perseguição e morte de homens com Wycliff e Huss não foram empreendimentos frustrados, e sim o plano soberano de Deus abrindo caminho para acontecimentos maiores. Anos mais tarde os reformadores levantaram a bandeira da “Sola Scriptura”, em favor da suficiência e autoridade exclusiva da Palavra  de Deus sobre qualquer dogma ou direção humana. A semente do ensino de Wycliff e Huss estava lá e, até hoje, dá os seus frutos.
A presente lição serve como um alerta para  a Igreja de hoje. Os crentes devem viver uma vida santa e, ao mesmo tempo, devem estar prontos para reformar a igreja sempre que ela se afastar do ensino bíblico. Agindo assim seremos encontrados por Deus fiéis.
Quão disposto você está a sacrificar sua vida por amor ao Evangelho?
Nota
¹ CAIRNS O Cristianismo Através dos Séculos, p. 206.
² Conhecimento como “De Haeretico Comburendo”.
Autor: Dráusio Piratininga Gonçalves
Fonte: revista Palavra Viva – Graça e Fé, pg 5-8, Editora Cultura Cristã. Compre esta trim

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

VASOS QUEBRADOS

Era uma vez um depósito de vasos quebrados.

Ninguém se importava com eles. Eles mesmos não se importavam por estar quebrados, ao contrário, quanto mais quebrados ficavam, mais eram respeitados pelos outros.

Um dia, por engano, um vaso inteiro foi parar no meio dos vasos quebrados, mas, por ser diferente dos demais, de imediato ele foi rejeitado e hostilizado. 
Justo ele, que tinha uma necessidade miserável de ser aceito.

Tentou se aproximar dos vasos menos danificados, aqueles que tinham apenas a boca rachada, mas, não deu certo. Depois, procurou se aproximar dos vasos que tinham apenas um pequeno furo na barriga, mas, também foi repelido. Tentou uma terceira vez, com os vasos que estavam trincados na base, mas, não adiantou.

Resolveu, então, arranjar umas brigas, esperando conseguir um ferimento, um risco, uma trinca ou, quem sabe, com um pouco de sorte, até um quebrado bacana, mas, naquele lugar, ninguém tinha força bastante para quebrar os outros. Se algum vaso quisesse se quebrar, tinha que fazer isso sozinho.

E foi isso mesmo que ele fez. E conseguiu o que queria, ser aceito no clube dos vasos quebrados.

Ficou feliz, realizado, mas, não por muito tempo, pois, logo começou a se incomodar com uma outra necessidade, a de ser respeitado pelos demais vasos quebrados.

Para isso, teve que ir-se quebrando. E se quebrou em tantos pedaços que voltou ao pó.

E deixou de ser vaso!

Pr Ronaldo Alves Franco

Não vos enganeis. As más companhias
corrompem os bons costumes.

I Coríntios 15.33

amargo regresso

AMARGO REGRESSO
Esta história é contada como verídica. Fala de um jovem soldado que finalmente estava voltando para casa, depois de ter lutado numa guerra muito sangrenta.

Ele ligou para seus pais e disse-lhes:
- Mãe, Pai, eu estou voltando para casa, mas, quero lhes pedir um favor. Eu tenho um amigo que eu gostaria de trazer comigo.

- Claro, filho, nos adoraríamos conhecê-lo!

- Mas, há algo que vocês precisam saber, ele foi terrivelmente ferido na guerra; pisou em uma mina e perdeu um braço e uma perna. Ele não tem nenhum lugar para ir e, por isso, eu quero que ele venha morar conosco.

- Puxa, filho, não é facil cuidar de uma pessoa com tantas dificuldades assim... mas, traga-o com você, nós vamos ajudá-lo a encontrar um lugar para ele.

- Não, mamãe e papai, eu quero que ele venha morar conosco.

- Filho, nós não podemos assumir um compromisso tão grande assim. Ele não seria feliz morando aqui conosco. E nós perderíamos um pouco da nossa liberdade. Vamos achar um lugar em que cuidem bem dele.

- Está certo, papai, o senhor tem razão!
Alguns dias depois, no entanto, eles receberam um outro telefonema, da polícia. O filho deles havia cometido suicídio, num hotelzinho de beira de estrada numa cidade vizinha, bem perto deles.
Quando ele foram fazer o reconhecimento do corpo descobriram que o "amigo" do qual o rapaz falara era ele mesmo, que havia sido gravemente ferido na guerra e escondera o fato de seus pais, com medo de não ser aceito por eles.


Mas Deus prova o seu amor para conosco,
em que, quando éramos ainda pecadores,
Cristo morreu por nós.

Romanos 5.8


fotos reformada






sábado, 2 de novembro de 2013

as 95 teses de Martinho Lutero.

Dia 31 de Outubro é comemorado o dia da REFORMA PROTESTANTE

Por amor à verdade e no empenho de elucidá-la, discutir-se-á o seguinte em Wittenberg, sob a presidência do reverendo padre Martinho Lutero, mestre de Artes e de Santa Teologia e professor catedrático desta última, naquela localidade. Por esta razão, ele solicita que os que não puderem estar presentes e debater conosco oralmente o façam por escrito, mesmo que ausentes. Em nome do nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

1 – Ao dizer: “Fazei penitência”, etc. [Mt 4.17], o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.
2 –  Esta penitência não pode ser entendida como penitência sacramental (isto é, da confissão e satisfação celebrada pelo ministério dos sacerdotes).
3 – No entanto, ela não se refere apenas a uma penitência interior; sim, a penitência interior seria nula, se, externamente, não produzisse toda sorte de mortificação da carne.
4 – Por conseqüência, a pena perdura enquanto persiste o ódio de si mesmo (isto é a verdadeira penitência interior), ou seja, até a entrada do reino dos céus.
5 O papa não quer nem pode dispensar de quaisquer penas senão daquelas que impôs por decisão própria ou dos cânones.
6 – O papa não pode remitir culpa alguma senão declarando e confirmando que ela foi perdoada por Deus, ou, sem dúvida, remitindo-a nos casos reservados para si; se estes forem desprezados, a culpa permanecerá por inteiro.
7 – Deus não perdoa a culpa de qualquer pessoa sem, ao mesmo tempo, sujeitá-la, em tudo humilhada, ao sacerdote, seu vigário.
8 – Os cânones penitenciais são impostos apenas aos vivos; segundo os mesmos cânones, nada deve ser imposto aos moribundos.
9 – Por isso, o Espírito Santo nos beneficia através do papa quando este, em seus decretos, sempre exclui a circunstância da morte e da necessidade.
10 – Agem mal e sem conhecimento de causa aqueles sacerdotes que reservam aos moribundos penitências canônicas para o purgatório.
11 – Essa erva daninha de transformar a pena canônica em pena do purgatório parece ter sido semeada enquanto os bispos certamente dormiam.
12 – Antigamente se impunham as penas canônicas não depois, mas antes da absolvição, como verificação da verdadeira contrição.
13 – Através da morte, os moribundos pagam tudo e já estão mortos para as leis canônicas, tendo, por direito, isenção das mesmas.
14 – Saúde ou amor imperfeito no moribundo necessariamente traz consigo grande temor, e tanto mais, quanto menor for o amor.
15 – Este temor e horror por si sós já bastam (para não falar de outras coisas) para produzir a pena do purgatório, uma vez que estão próximos do horror do desespero.
16 – Inferno, purgatório e céu parecem diferir da mesma forma que o desespero, o semidesespero e a segurança.
17 – Parece desnecessário, para as almas no purgatório, que o horror diminua na medida em que cresce o amor.
18 – Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos racionais nem da Escritura, que elas se encontram fora do estado de mérito ou de crescimento no amor.
19 – Também parece não ter sido provado que as almas no purgatório estejam certas de sua bem-aventurança, ao menos não todas, mesmo que nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza.
20 – Portanto, sob remissão plena de todas as penas, o papa não entende simplesmente todas, mas somente aquelas que ele mesmo impôs.
21 – Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do papa.
22 – Com efeito, ele não dispensa as almas no purgatório de uma única pena que, segundo os cânones, elas deveriam ter pago nesta vida.
23 – Se é que se pode dar algum perdão de todas as penas a alguém, ele, certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto é, pouquíssimos.
24 – Por isso, a maior parte do povo está sendo necessariamente ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena.
25 – O mesmo poder que o papa tem sobre o purgatório de modo geral, qualquer bispo e cura tem em sua diocese e paróquia em particular.
26 – O papa faz muito bem ao dar remissão às almas não pelo poder das chaves (que ele não tem), mas por meio de intercessão.
27 – Pregam doutrina humana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando [do purgatório para o céu].
28 – Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa, podem aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de Deus.
29 – E quem é que sabe se todas as almas no purgatório querem ser resgatadas? Dizem que este não foi o caso com S. Severino e S. Pascoal.
30 – Ninguém tem certeza da veracidade de sua contrição, muito menos de haver conseguido plena remissão.
31 – Tão raro como quem é penitente de verdade é quem adquire autenticamente as indulgências, ou seja, é raríssimo.
32 – Serão condenados em eternidade, juntamente com seus mestres, aqueles que se julgam seguros de sua salvação através de carta de indulgência.
33 – Deve-se ter muita cautela com aqueles que dizem serem as indulgências do papa aquela inestimável dádiva de Deus através da qual a pessoa é reconciliada com Deus.
34 – Pois aquelas graças das indulgências se referem somente às penas de satisfação sacramental, determinadas por seres humanos.
35 – Não pregam cristãmente os que ensinam não ser necessária a contrição àqueles que querem resgatar ou adquirir breves confessionais.
36 – Qualquer cristão verdadeiramente arrependido tem direito à remissão pela de pena e culpa, mesmo sem carta de indulgência.
37 – Qualquer cristão verdadeiro, seja vivo, seja morto, tem participação em todos os bens de Cristo e da Igreja, por dádiva de Deus, mesmo sem carta de indulgência.
38 – Mesmo assim, a remissão e participação do papa de forma alguma devem ser desprezadas, porque (como disse) constituem declaração do perdão divino.
39 – Até mesmo para os mais doutos teólogos é dificílimo exaltar perante o povo ao mesmo tempo, a liberdade das indulgências e a verdadeira contrição.
40 – A verdadeira contrição procura e ama as penas, ao passo que a abundância das indulgências as afrouxa e faz odiá-las, pelo menos dando ocasião para tanto.
41 – Deve-se pregar com muita cautela sobre as indulgências apostólicas, para que o povo não as julgue erroneamente como preferíveis às demais boas obras do amor.
42 – Deve-se ensinar aos cristãos que não é pensamento do papa que a compra de indulgências possa, de alguma forma, ser comparada com as obras de misericórdia.
43 – Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se comprassem indulgências.
44 – Ocorre que através da obra de amor cresce o amor e a pessoa se torna melhor, ao passo que com as indulgências ela não se torna melhor, mas apenas mais livre da pena.
45 – Deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um carente e o negligencia para gastar com indulgências obtém para si não as indulgências do papa, mas a ira de Deus.
46 – Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem bens em abundância, devem conservar o que é necessário para sua casa e de forma alguma desperdiçar dinheiro com indulgência.
47 – Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de indulgências é livre e não constitui obrigação.
48 – Deve-se ensinar aos cristãos que, ao conceder indulgências, o papa, assim como mais necessita, da mesma forma mais deseja uma oração devota a seu favor do que o dinheiro que se está pronto a pagar.
49 – Deve-se ensinar aos cristãos que as indulgências do papa são úteis se não depositam sua confiança nelas, porém, extremamente prejudiciais se perdem o temor de Deus por causa delas.
50 – Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa soubesse das exações dos pregadores de indulgências, preferiria reduzir a cinzas a Basílica de S. Pedro a edificá-la com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.
51 – Deve-se ensinar aos cristãos que o papa estaria disposto – como é seu dever – a dar do seu dinheiro àqueles muitos de quem alguns pregadores de indulgências extraem ardilosamente o dinheiro, mesmo que para isto fosse necessário vender a Basílica de S. Pedro.
52 – Vã é a confiança na salvação por meio de cartas de indulgências, mesmo que o comissário ou até mesmo o próprio papa desse sua alma como garantia pelas mesmas.
53 – São inimigos de Cristo e do papa aqueles que, por causa da pregação de indulgências, fazem calar por inteiro a palavra de Deus nas demais igrejas.
54 – Ofende-se a palavra de Deus quando, em um mesmo sermão, se dedica tanto ou mais tempo às indulgências do que a ela.
55 – A atitude do papa é necessariamente esta: se as indulgências (que são o menos importante) são celebradas com um toque de sino, uma procissão e uma cerimônia, o Evangelho (que é o mais importante) deve ser anunciado com uma centena de sinos, procissões e cerimônias.
56 – Os tesouros da Igreja, dos quais o papa concede as indulgências, não são suficientemente mencionados nem conhecidos entre o povo de Cristo.
57 – É evidente que eles, certamente, não são de natureza temporal, visto que muitos pregadores não os distribuem tão facilmente, mas apenas os ajuntam.
58 – Eles tampouco são os méritos de Cristo e dos santos, pois estes sempre operam, sem o papa, a graça do ser humano interior e a cruz, a morte e o inferno do ser humano exterior.
59 – S. Lourenço disse que os pobres da Igreja são os tesouros da mesma, empregando, no entanto, a palavra como era usada em sua época.
60 – É sem temeridade que dizemos que as chaves da Igreja, que lhe foram proporcionadas pelo mérito de Cristo, constituem este tesouro.
61 – Pois está claro que, para a remissão das penas e dos casos, o poder do papa por si só é suficiente.
62 – O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.
63 – Este tesouro, entretanto, é o mais odiado, e com razão, porque faz com que os primeiros sejam os últimos.
64 – Em contrapartida, o tesouro das indulgências é o mais benquisto, e com razão, pois faz dos últimos os primeiros.
65 – Por esta razão, os tesouros do Evangelho são as redes com que outrora se pescavam homens possuidores de riquezas.
66 – Os tesouros das indulgências, por sua vez, são as redes com que hoje se pesca a riqueza dos homens.
67 – As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como as maiores graças realmente podem ser entendidas como tal, na medida em que dão boa renda.
68 – Entretanto, na verdade, elas são as graças mais ínfimas em comparação com a graça de Deus e a piedade na cruz.
69 – Os bispos e curas têm a obrigação de admitir com toda a reverência os comissários de indulgências apostólicas.
70 – Têm, porém, a obrigação ainda maior de observar com os dois olhos e atentar com ambos os ouvidos para que esses comissários não preguem os seus próprios sonhos em lugar do que lhes foi incumbido pelo papa.
71 – Seja excomungado e maldito quem falar contra a verdade das indulgências apostólicas.
72 – Seja bendito, porém, quem ficar alerta contra a devassidão e licenciosidade das palavras de um pregador de indulgências.
73 – Assim como o papa, com razão, fulmina aqueles que, de qualquer forma, procuram defraudar o comércio de indulgências,
74 – muito mais deseja fulminar aqueles que, a pretexto das indulgências, procuram defraudar a santa caridade e verdade.
75 – A opinião de que as indulgências papais são tão eficazes ao ponto de poderem absolver um homem mesmo que tivesse violentado a mãe de Deus, caso isso fosse possível, é loucura.
76 – Afirmamos, pelo contrário, que as indulgências papais não podem anular sequer o menor dos pecados veniais no que se refere à sua culpa.
77 – A afirmação de que nem mesmo S. Pedro, caso fosse o papa atualmente, poderia conceder maiores graças é blasfêmia contra São Pedro e o papa.
78 – Afirmamos, ao contrário, que também este, assim como qualquer papa, tem graças maiores, quais sejam, o Evangelho, os poderes, os dons de curar, etc., como está escrito em 1 Co 12.
79 – É blasfêmia dizer que a cruz com as armas do papa, insignemente erguida, equivale à cruz de Cristo.
80 – Terão que prestar contas os bispos, curas e teólogos que permitem que semelhantes conversas sejam difundidas entre o povo.
81 – Essa licenciosa pregação de indulgências faz com que não seja fácil, nem para os homens doutos, defender a dignidade do papa contra calúnias ou perguntas, sem dúvida argutas, dos leigos.
82 – Por exemplo: por que o papa não evacua o purgatório por causa do santíssimo amor e da extrema necessidade das almas – o que seria a mais justa de todas as causas -, se redime um número infinito de almas por causa do funestíssimo dinheiro para a construção da basílica – que é uma causa tão insignificante?
83 – Do mesmo modo: por que se mantêm as exéquias e os aniversários dos falecidos e por que ele não restitui ou permite que se recebam de volta as doações efetuadas em favor deles, visto que já não é justo orar pelos redimidos?
84 – Do mesmo modo: que nova piedade de Deus e do papa é essa: por causa do dinheiro, permitem ao ímpio e inimigo redimir uma alma piedosa e amiga de Deus, porém não a redimem por causa da necessidade da mesma alma piedosa e dileta, por amor gratuito?
85 – Do mesmo modo: por que os cânones penitenciais – de fato e por desuso já há muito revogados e mortos – ainda assim são redimidos com dinheiro, pela concessão de indulgências, como se ainda estivessem em pleno vigor?
86 – Do mesmo modo: por que o papa, cuja fortuna hoje é maior do que a dos mais ricos Crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta uma basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis?
87 – Do mesmo modo: o que é que o papa perdoa e concede àqueles que, pela contrição perfeita, têm direito à remissão e participação plenária?
88 – Do mesmo modo: que benefício maior se poderia proporcionar à Igreja do que se o papa, assim como agora o faz uma vez, da mesma forma concedesse essas remissões e participações 100 vezes ao dia a qualquer dos fiéis?
89 – Já que, com as indulgências, o papa procura mais a salvação das almas do o dinheiro, por que suspende as cartas e indulgências outrora já concedidas, se são igualmente eficazes?
90 – Reprimir esses argumentos muito perspicazes dos leigos somente pela força, sem refutá-los apresentando razões, significa expor a Igreja e o papa à zombaria dos inimigos e desgraçar os cristãos.
91 – Se, portanto, as indulgências fossem pregadas em conformidade com o espírito e a opinião do papa, todas essas objeções poderiam ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido.
92 – Fora, pois, com todos esses profetas que dizem ao povo de Cristo: “Paz, paz!” sem que haja paz!
93 – Que prosperem todos os profetas que dizem ao povo de Cristo: “Cruz! Cruz!”sem que haja cruz!

94 – Devem-se exortar os cristãos a que se esforcem por seguir a Cristo, seu cabeça, através das penas, da morte e do inferno;

95 – e, assim, a que confiem que entrarão no céu antes através de muitas tribulações do que pela segurança da paz.
1517 A.D.
“Uns cofiam em carros e cavalos, nós faremos menção do nome do Senhor”